Quando o interesse da criança vira caminho para aprender

Este Sistema Solar foi construído no AEE com um aluno muito especial para mim: Nicolas, que acompanhei durante dois anos.

Nicolas era extremamente criativo, curioso, gostava de matemática e de livros — e eu adorava embarcar em suas ideias.

Um dia, chegou ao atendimento falando sobre o Sistema Solar. Contou sobre os planetas, explicou os dois gigantes em mínimos detalhes e falou com tanto entusiasmo que eu perguntei:

Vamos fazer uma maquete do Sistema Solar?

Ele respondeu imediatamente:

Vamos!

E aquilo que começou em uma conversa virou um projeto de aproximadamente três semanas.

Antes de construir, pesquisamos juntos no computador. Observamos fotografias reais dos planetas, suas cores, tamanhos e características. Foi durante essas pesquisas que conversamos também sobre Plutão e descobrimos por que ele passou a ser classificado como planeta-anão.

Nicolas encontrou sua própria solução para representá-lo:

Eu vou pintar uma bolinha pequena e a gente põe fora da linha reta.

E assim fizemos.

O painel preto foi pintado por ele com as próprias mãos. Depois veio o glitter, espalhado pelo espaço. Em determinado momento, ele olhou para mim e pediu:

Prô Juju, faz uma galáxia aqui pra mim? Eu vou tentar fazer um buraco de minhoca.

E lá estávamos nós: professora e aluno, pesquisando, pintando planetas, criando galáxias e rindo enquanto tentávamos construir um pedacinho do Universo sobre uma placa.

Mas essa maquete guarda uma história que não aparece imediatamente na fotografia.

Nicolas não frequentava o AEE porque precisasse que alguém lhe ensinasse conteúdos acadêmicos. Era um menino com muitos conhecimentos e interesses. Nosso trabalho estava principalmente relacionado à timidez, à expressão de suas vontades, à autorregulação e às relações sociais.

Na escola, havia uma relação com um colega muito dominante, diante do qual Nicolas tinha dificuldade de se posicionar. Muitas vezes aceitava fazer o que o outro determinava e acabava sufocando aquilo que realmente queria. Essa tensão aparecia posteriormente em casa, por meio de episódios de raiva e gritos.

Durante os atendimentos, trabalhamos estratégias de respiração e regulação da raiva, reconhecimento das próprias emoções e, sobretudo, algo que parece pequeno, mas pode representar uma enorme conquista para uma criança:

aprender a dizer “não”.

Aprender que podia discordar.

Que podia escolher.

Que sua vontade também tinha lugar.

E talvez seja por isso que gosto tanto dessa maquete.

Porque nela Nicolas escolheu.

Pesquisou. Questionou. Planejou. Pintou. Decidiu onde colocar Plutão. Imaginou um buraco de minhoca. Pediu uma galáxia. Explicou o que sabia e me ensinou também.

Eu não precisava ocupar o lugar de quem sabia tudo.

Às vezes eu apenas dizia:

“Vamos descobrir juntos?”

E embarcava.

O AEE também é isso.

Não é olhar apenas para aquilo que uma criança ainda precisa desenvolver. É descobrir aquilo que já pulsa nela e transformar seus interesses e suas potencialidades em caminhos para ampliar participação, autonomia e confiança.

Essa maquete ensinou sobre planetas, pesquisa, proporção, cores, organização espacial e ciência.

Mas, para mim, ela guarda algo ainda maior.

Guarda curiosidade, autoria, vínculo e a história de uma criança descobrindo que suas ideias também mereciam ocupar espaço. 

E de uma professora que teve o privilégio de responder:

“Então vamos construir.”

Profª Jussara — AEE

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