Crônica de uma Educação que Esqueceu Seus Professores

© Jussara Fagundes Rodrigues – 2026

Neuropsicopedagoga | Psicopedagoga | Professora da Educação Especial | Professora Polivalente

Autora da obra:

“Crônica de uma Educação que Esqueceu Seus Professores”

Este texto é uma produção autoral construída a partir de vivências reais, observações profissionais e reflexões humanas desenvolvidas ao longo de décadas na educação pública brasileira.

É permitida a leitura, compartilhamento e divulgação com os devidos créditos à autora.

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“Escrevo não para convencer.

Escrevo porque vivi.”

— Jussara Fagundes Rodrigues

Crônica de uma Educação que Esqueceu Seus Professores

Não escrevo como especialista distante da educação.

Escrevo como alguém que a atravessou por dentro.

Vi a educação pública antes das grandes reformas.

Vi quando o professor ainda era ouvido dentro da escola.

Vi quando reuniões pedagógicas eram mais humanas do que burocráticas.

Vi quando o planejamento ainda carregava sentido pedagógico antes de se transformar em preenchimento de plataformas.

Ainda no magistério, nos anos 90, observei as greves docentes durante o governo Maluf.

Eu era estudante, mas já percebia algo inquietante:

a distância entre quem criava as políticas educacionais e quem vivia a realidade da sala de aula.

Depois vieram outros governos.

E não, nem tudo foi igual.

Durante o período de Geraldo Alckmin, acompanhei projetos que ainda buscavam aproximar escola e comunidade.

Na parceria com a UNESCO e no Escola da Família, do qual participei como educadora profissional, existia ao menos a tentativa de devolver presença humana aos espaços escolares.

Os aperfeiçoamentos tinham propósito.

A escola ainda parecia carregada da ideia de formação social.

Mas, aos poucos, comecei a assistir a uma mudança silenciosa na identidade da educação pública.

A linguagem pedagógica foi cedendo espaço à linguagem administrativa.

A escola passou a ser conduzida por metas,

índices,

estatísticas,

produtividade,

desempenho,

e mecanismos de controle cada vez mais distantes da complexidade humana da aprendizagem.

As mudanças deixaram de chegar como construção coletiva.

Chegavam prontas.

Hierarquizadas.

Implementadas.

O professor já não participava do debate.

Recebia a nova diretriz e precisava adaptar-se emocionalmente a ela enquanto continuava ensinando.

Foi nesse processo que comecei a perceber o enfraquecimento gradual da autoridade docente,

o aumento da pressão emocional

e a transformação do professor em executor permanente de demandas institucionais.

A inclusão cresceu.

As exigências cresceram.

Os registros cresceram.

As cobranças cresceram.

Mas o suporte humano não cresceu na mesma proporção.

A escola passou a absorver funções emocionais, sociais e clínicas que pertencem a uma sociedade inteira em crise.

E mesmo assim, continuou-se exigindo do professor resultados lineares em realidades cada vez mais complexas.

Depois vieram reformas ainda mais duras.

Mudanças de carreira.

Mudanças de direitos.

Pressões por desempenho.

Bonificações individualizadas.

Fragmentação do coletivo escolar.

E talvez tenha sido essa uma das rupturas mais dolorosas que presenciei:

a transformação da escola em lógica de performance individual.

Porque nenhuma escola funciona por mérito isolado.

Nenhum aluno é sustentado por um único CPF.

Existe uma rede invisível por trás de cada aprendizagem:

merenda,

limpeza,

inspetoria,

gestão,

apoio,

mediação,

professores,

afetos,

presenças

e resistências silenciosas.

Mas a educação foi sendo conduzida como se pudesse ser medida apenas por números.

Hoje, olhando para trás, não vejo apenas mudanças pedagógicas.

Vejo décadas de compressão emocional sobre os profissionais da educação.

E talvez o mais triste seja perceber que muitos professores permaneceram não porque o sistema os valorizou —

mas porque ainda amavam profundamente aquilo que acontecia dentro da sala de aula.

Talvez o que mais me assuste hoje não seja apenas a crise da educação.

É perceber que diferentes áreas humanas começam a adoecer do mesmo modo.

Vejo isso na escola.

Vejo isso na saúde.

Vejo isso nos discursos institucionais sobre inclusão.

Tudo parece tecnicamente organizado.

Protocolos existem.

Normas existem.

Diretrizes existem.

Mas, muitas vezes, o humano desaparece no meio do caminho.

Recentemente, após uma reação alérgica grave, entrei em um pronto atendimento com a garganta fechando e dificuldade para engolir saliva.

Enquanto tentava respirar e explicar meu histórico, observei algo que já havia sentido na educação:

profissionais jovens extremamente protocolizados, pressionados e, por vezes, inseguros diante da complexidade real da vida humana.

Aquilo me atravessou profundamente.

Porque percebi o mesmo fenômeno que vejo na escola:

formações aceleradas,

sistemas sobrecarregados,

excesso de burocracia,

e pouca sustentação emocional e prática para quem está na linha de frente.

Na educação, chamam isso de inclusão.

Mas muitas vezes entregam ao professor apenas a responsabilidade — sem estrutura equivalente.

Vi isso também no ENEM como ledora e transcritora.

A prova dizia ser inclusiva.

Mas o aluno com deficiência intelectual continuava submetido praticamente à mesma exaustão cognitiva do aluno típico.

Ler não é incluir.

Adaptar não é apenas reduzir fonte ou oferecer tempo.

Inclusão verdadeira exige compreensão humana da limitação, da mediação e da funcionalidade real daquele sujeito diante da tarefa.

Talvez estejamos vivendo uma era em que os sistemas aprenderam a produzir documentos sobre humanidade…

mas desaprenderam a sustentar humanamente as pessoas que estão dentro deles.

Às vezes tenho a sensação de que os sistemas continuam funcionando…

mas o humano dentro deles está desaparecendo lentamente.

As pessoas seguem protocolos.

Preenchem relatórios.

Aplicam métodos.

Executam funções.

Mas algo não encaixa completamente.

Existe conhecimento.

Existe tecnologia.

Existem discursos sobre inclusão, saúde mental e acolhimento.

E ainda assim, cresce o cansaço,

o adoecimento,

a solidão emocional

e a sensação silenciosa de desamparo coletivo.

Depois de tantos anos atravessando escolas, reformas, adoecimentos institucionais e silêncios humanos, comecei a perceber algo que vai além da educação.

Talvez o maior empobrecimento da nossa época não seja material.

Talvez seja emocional, relacional e espiritual.

Os sistemas continuam funcionando.

As pessoas continuam produzindo.

As instituições continuam operando.

Mas muitos já não conseguem sentir pertencimento,

presença,

escuta

ou conexão verdadeira uns com os outros.

E talvez tenha sido justamente dentro do sofrimento humano que comecei a despertar para algo diferente.

Hoje compreendo que nenhuma aprendizagem real acontece sem vínculo.

Nenhum cuidado existe sem presença humana.

Nenhuma inclusão é verdadeira sem empatia.

E nenhuma sociedade permanece saudável quando perde a capacidade de reconhecer a dor do outro.

Depois de tudo o que vivi, já não acredito apenas em métodos, protocolos ou discursos prontos.

Acredito na consciência.

Na responsabilidade humana.

Na escuta.

Na gratidão.

E no amor como força silenciosa capaz de impedir que nos tornemos completamente mecânicos por dentro.

Talvez todos nós façamos parte da mesma trama humana.

Mas nem todos ainda conseguiram perceber isso.

Talvez a humanidade não esteja exatamente menos inteligente.

Talvez esteja apenas cada vez mais distante de si mesma.

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