Entre o som e o sentido: quando “amor vermelho” não estava na música, mas em mim

Em uma dessas noites em que o corpo pede descanso, mas a mente insiste em permanecer acordada, me vi atravessada por um fenômeno curioso: uma música não saía da minha cabeça.

Era If You Had My Love, da Jennifer Lopez.

Até aí, nada incomum. Muitas pessoas já experimentaram aquele trecho repetitivo que insiste em tocar internamente — o chamado earworm, ou “loop musical involuntário”. No entanto, para mim, a experiência não se limita a “uma música chiclete”. Ela se expande, ganha corpo, atravessa pensamento, linguagem e, por vezes, se manifesta em voz alta.

Sem perceber, eu repetia um trecho da música. Não apenas mentalmente — mas também verbalmente. Um fragmento que se destacava, se fixava, e se repetia como se tivesse vida própria.

Foi então que algo me chamou atenção.

Eu não compreendia exatamente o que estava sendo dito na letra original. Não falo inglês fluentemente. Ainda assim, o meu cérebro fez o que ele sempre faz: tentou dar sentido ao som.

E foi assim que nasceu a frase:

“Você é meu amor vermelho.”

A princípio, engraçado. Quase um erro inocente. Mas, ao observar com mais atenção, percebi que havia ali algo muito maior.

Quando o cérebro precisa significar

O cérebro humano não é um receptor passivo de sons. Ele é, antes de tudo, um intérprete ativo. Diante de uma informação incompleta — como uma música em uma língua não dominada — ele busca padrões, aproximações, referências conhecidas.

Esse fenômeno é conhecido como misheard lyrics — quando ouvimos algo diferente do que realmente está sendo dito, criando novas interpretações a partir da sonoridade. No meu caso, o som em inglês foi reorganizado internamente em uma estrutura familiar, em português. O desconhecido foi traduzido não pela fidelidade à língua original, mas pela necessidade de coerência interna.

O cérebro não suportou o “não entender”. Então, ele criou.

♾️ Repetição, autismo e autorregulação

Como pessoa autista, essa experiência ganha camadas adicionais. A repetição — seja de palavras, sons ou músicas — não é aleatória. Ela pode estar relacionada à ecolalia, que não se limita à fala do outro, mas também pode se manifestar como repetição interna ou vocal de conteúdos já armazenados. Além disso, há o que muitos descrevem como uma forma de stimming vocal: uma repetição que organiza, regula, estabiliza.

O loop musical, nesse contexto, não é apenas um incômodo. Ele pode ser uma tentativa do cérebro de organizar estímulos, reduzir a ansiedade ou manter a previsibilidade. No entanto, quando intenso, também pode invadir o descanso e gerar exaustão.

Quando ouvir não é apenas ouvir: a intensidade do Vermelho

Existe uma dimensão mais sutil dessa experiência. Ao “ter a música dentro de mim”, sinto um preenchimento. É uma espécie de sinestesia leve, onde as fronteiras entre ouvir, pensar e sentir se dissolvem.

O “Vermelho” que meu cérebro projetou na letra não foi por acaso. Naquele looping, a cor tomou forma. Não era um vermelho de alerta ou perigo, mas o vermelho da intensidade. Era o calor de uma mente que não desliga, a vibração de um som que se torna tátil, quase sólido. O “amor vermelho” era a tradução visual daquela energia que pulsava no meu crânio; uma cor quente que preenchia o vazio do não-saber, transformando um som abstrato em algo vivo, visceral e apaixonadamente presente.

A música não estava só tocando. Ela estava acontecendo em cores.

Escrever como forma de organizar o mundo

Diante disso, escrevo. Escrevo para deslocar o que está dentro. Escrevo para dar contorno ao que é difuso. Escrevo para transformar repetição em linguagem.

Ao externalizar algo se reorganiza. O que antes era um ciclo fechado, passa a ter início, meio e possibilidade de fim. Inclusive, uma das estratégias para lidar com o earworm é justamente ouvir a música inteira, permitindo que o cérebro “feche o ciclo”. Outra estratégia é nomear. E este texto é a minha nomeação.

❤️ Entre o erro e o sentido

Depois, fui buscar a letra original.

“If you had my love…” (Se você tivesse o meu amor…)

Nada de “amor vermelho”.

E ainda assim, por um instante, aquela versão criada por mim fez mais sentido do que a original. Porque ela não falava da música. Falava de mim.

Considerações finais

“Amor vermelho” não estava na letra. Mas estava na forma como meu cérebro ouviu, interpretou e precisou significar. Entre o som e o sentido, existe um espaço criativo, subjetivo e profundamente humano.

E talvez, nesse espaço, não existam erros. Apenas diferentes — e coloridas — maneiras de perceber o mundo.

Jussara Fagundes Rodrigues

Percepções Autistas | Escrita terapêutica e educacional

“Entre o sentir e o escrever, eu organizo o mundo.”

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