Abril é marcado por campanhas de conscientização sobre o autismo. Multiplicam-se discursos, postagens e posicionamentos que defendem a inclusão como um princípio fundamental. No entanto, para além da visibilidade simbólica, permanece uma pergunta incômoda: o quanto dessa inclusão, de fato, acontece na prática?
A experiência cotidiana mostra que há uma distância significativa entre o que está previsto nas leis e o que se concretiza nos espaços educacionais. A legislação é, sem dúvida, um avanço. Mas, isoladamente, ela não garante transformação. Na prática, a inclusão ainda não se sustenta.
Falo a partir de um lugar que carrega essa contradição de forma intensa: sou professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE), pesquisadora, e pessoa autista adulta (nível de suporte 2). Estou, ao mesmo tempo, na produção do conhecimento e no “pé de chão” da escola. E é justamente dessa posição que emergem as tensões mais difíceis de ignorar.
Há dias em que o trabalho no AEE se torna uma batalha invisível. Não pela ausência de conhecimento — mas pela impossibilidade de aplicá-lo. Mesmo com formação em análise do comportamento aplicada (ABA), neuropsicopedagogia e psicopedagogia, encontro limites impostos por um sistema que não oferece respaldo para o manejo adequado das situações reais.
Crianças em processo de desregulação exigem intervenção qualificada, segura e ética. No entanto, o que se observa é o oposto: profissionais sem orientação prática, ausência de protocolos claros e, muitas vezes, proibições generalizadas que impedem qualquer ação mais efetiva. O medo de interpretações equivocadas transforma o cuidado em omissão.
A escola, que deveria ser espaço de acolhimento e desenvolvimento, passa a operar sob uma lógica de restrição. Não pode intervir, não pode manejar, não pode adaptar — e, nesse cenário, também não se constrói aprendizagem. A consequência é o aumento do sofrimento: das crianças, que não têm suas necessidades atendidas, e dos profissionais, que se veem impedidos de exercer sua função com responsabilidade.
Há ainda fatores que agravam esse contexto, como o uso crescente de medicações que, em alguns casos, intensificam estados de agitação e desconforto. Situações que demandariam sensibilidade e manejo adequado acabam sendo tratadas com distanciamento e rigidez.
Nesse cenário, emerge um elemento central: o medo institucional. Não se trata apenas da falta de conhecimento, mas de uma cultura que evita agir por receio — receio de responsabilização, de julgamento, de ultrapassar limites mal definidos. Esse medo produz paralisia.
E onde há paralisia, surgem os rótulos.
A pessoa autista — seja criança ou adulta — passa a ser vista a partir de estereótipos, e não de suas possibilidades. No caso dos adultos, o cenário é ainda mais invisibilizado. Espera-se adaptação sem oferecer suporte. Questiona-se capacidade sem oferecer oportunidade.
Como profissional e como pessoa autista, essa experiência se torna ainda mais complexa. Mesmo com formação, preparo e atuação direta, também me vejo atravessada por esse sistema. Há momentos em que minha função é esvaziada, desviada ou silenciada. Espaços de participação são negados. Vozes são interrompidas.
Essa não é apenas uma falha pontual — é um padrão.
E é nesse ponto que se evidencia uma das questões mais urgentes: a inclusão, como vem sendo praticada, ainda não acontece de forma efetiva. Nem para crianças. Nem para adultos.
O que existe, muitas vezes, é um discurso institucionalizado, que não se sustenta diante da realidade.
Reconhecer isso não é negar os avanços já conquistados, mas recusar a ideia de que eles são suficientes. Inclusão exige mais do que intenção. Exige formação continuada, respaldo institucional, protocolos claros e, sobretudo, abertura para escuta de quem vive essas experiências.
Enquanto isso não se concretiza, seguimos em um cenário marcado por contradições: profissionais capacitados impedidos de atuar, crianças sem o suporte necessário e adultos autistas constantemente colocados à prova.
Mais do que conscientização, é preciso compromisso.
Porque, na prática, o que ainda se encontra com frequência não é inclusão —
mas medo, rótulo e silêncio institucional.


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