Jussara Fagundes Rodrigues
Psicopedagoga e Neuropsicopedagoga
Especialista em Atendimento Educacional Especializado (AEE)
RESUMO
O presente artigo analisa a crescente transferência da função educativa familiar para a escola, especialmente em contextos de período integral, e seus impactos neuroemocionais sobre o professor. A partir de fundamentos da Neuropsicopedagogia e da Neurociência da Educação, discute-se o desenvolvimento das funções executivas, a construção da moralidade, o papel dos limites na infância e as consequências da desautorização docente. Argumenta-se que a sobrecarga emocional decorrente da ampliação das demandas regulatórias escolares contribui para o adoecimento profissional, ativando mecanismos neurobiológicos associados ao estresse crônico. Defende-se a necessidade de reequilíbrio entre família e escola, com respaldo institucional à autoridade pedagógica.
Palavras-chave: Neuropsicopedagogia; Funções Executivas; Autoridade Docente; Regulação Emocional; Adoecimento Docente.
1 INTRODUÇÃO
As transformações sociais contemporâneas, incluindo a ampliação do período escolar integral e mudanças nas configurações familiares, têm provocado alterações significativas na dinâmica entre família e escola. Observa-se, em diversos contextos educacionais, uma tendência à delegação ampliada da função educativa primária à instituição escolar.
Essa transferência ultrapassa o ensino formal e passa a incluir responsabilidades relacionadas à formação moral, à imposição de limites e à regulação comportamental. Tal cenário produz impactos diretos sobre o professor, que assume funções historicamente atribuídas ao núcleo familiar.
Sob a perspectiva da Neuropsicopedagogia, compreender esse fenômeno exige analisar o desenvolvimento cerebral infantil, especialmente das funções executivas, bem como os efeitos do estresse ocupacional crônico sobre o cérebro docente.
2 A FUNÇÃO REGULATÓRIA DA FAMÍLIA E O PAPEL COMPLEMENTAR DA ESCOLA
A família constitui o primeiro núcleo de regulação emocional e social da criança. É nesse ambiente que se estruturam:
- Tolerância à frustração
- Controle inibitório
- Internalização de regras
- Organização moral inicial
A escola, por sua vez, desempenha função complementar, promovendo a ampliação da convivência social e a mediação pedagógica.
Quando ocorre a transferência quase integral da função regulatória para a escola, o professor passa a exercer dupla atribuição: educador formal e mediador primário de comportamentos básicos de convivência.
Essa ampliação de função, sem o correspondente suporte institucional, gera conflito de papéis e sobrecarga emocional.
3 NEUROCIÊNCIA DOS LIMITES E DO DESENVOLVIMENTO MORAL
3.1 Funções Executivas e Córtex Pré-Frontal
O córtex pré-frontal, responsável pelo controle inibitório, planejamento e tomada de decisão, apresenta maturação prolongada, estendendo-se até o início da vida adulta. Crianças pequenas dependem de regulação externa consistente para desenvolver autorregulação interna.
Limites claros e coerentes funcionam como organizadores neurais, favorecendo a consolidação de circuitos responsáveis pela inibição comportamental e pelo julgamento moral.
3.2 A Construção da Moralidade
A moralidade infantil evolui progressivamente. Em fases iniciais, a criança responde a regras por medo da consequência; apenas posteriormente desenvolve internalização ética.
A ausência de limites consistentes pode comprometer:
- Tolerância à frustração
- Empatia
- Respeito a normas sociais
3.3 A Mentira na Primeira Infância
Estudos em neurodesenvolvimento indicam que a capacidade de mentir intencionalmente surge entre 2 e 3 anos de idade, associada ao desenvolvimento da Teoria da Mente — habilidade de compreender que o outro possui pensamentos distintos dos próprios.
Portanto, a afirmação de que “criança não mente” carece de respaldo científico. A criança pode distorcer fatos por imaturidade cognitiva, medo ou busca de benefício secundário.
4 DESAUTORIZAÇÃO DOCENTE E IMPACTO NEUROBIOLÓGICO
A deslegitimação constante da autoridade pedagógica, especialmente quando acompanhada de exposição pública, ameaças ou acusações precipitadas, ativa no professor o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), responsável pela resposta ao estresse.
A ativação crônica desse sistema provoca:
- Elevação persistente de cortisol
- Fadiga cognitiva
- Diminuição da capacidade decisória
- Risco aumentado de burnout
O professor passa a operar em estado de hipervigilância, o que compromete tanto a saúde mental quanto a qualidade da prática pedagógica.
5 A ESCUTA DA CRIANÇA E A RESPONSABILIDADE ADULTA
A escuta da criança é princípio fundamental da educação democrática. Contudo, escuta não se confunde com validação automática de narrativa unilateral.
A análise institucional deve ser técnica, investigativa e equilibrada. A substituição do diálogo escola-família por julgamentos imediatos baseados exclusivamente na fala infantil fragiliza o ambiente escolar e intensifica conflitos.
6 SUPERPROTEÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA AUTONOMIA
Em determinados contextos familiares contemporâneos, observa-se tendência à superproteção, que pode dificultar o desenvolvimento da autonomia.
A ausência de frustração estruturada pode comprometer:
- Desenvolvimento da resiliência
- Capacidade de autorregulação
- Responsabilidade pessoal
A educação emocional exige equilíbrio entre acolhimento e limite.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A escola não substitui a família; ambas exercem funções complementares no desenvolvimento humano. A transferência excessiva da função educativa primária para o professor, associada à desautorização institucional, configura fator de risco para o adoecimento docente.
A Neuropsicopedagogia contribui para compreender que limite é instrumento de organização neural e social, não mecanismo de opressão.
Defende-se a construção de políticas institucionais que garantam:
- Respaldo à autoridade pedagógica
- Protocolos claros de mediação de conflitos
- Apoio à saúde mental docente
- Fortalecimento da parceria escola-família
REFERÊNCIAS (Modelo ABNT)
BARKLEY, R. A. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: Manual para Diagnóstico e Tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2008.
DAMÁSIO, A. O Erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
GOLEMAN, D. Inteligência Emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
PIAGET, J. O Juízo Moral na Criança. São Paulo: Summus, 1994.
VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
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Jussara Fagundes Rodrigues
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