O deslocamento afetivo da filha após o casamento: contribuições da psicanálise para a compreensão da relação mãe–filha na vida adulta

Resumo

O casamento constitui um marco simbólico que convoca reorganizações profundas na economia psíquica do sujeito. No caso da mulher, esse evento pode reativar conflitos primários relacionados à separação da figura materna, produzindo movimentos de deslocamento afetivo, idealização e hostilidade inconsciente. O presente artigo tem como objetivo analisar, à luz da psicanálise, o fenômeno do deslocamento afetivo da filha adulta em relação à mãe após o casamento, articulando contribuições de Sigmund Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan. Trata-se de um ensaio teórico-clínico que busca nomear um processo recorrente, porém pouco tematizado no discurso social contemporâneo, contribuindo para uma compreensão menos moralizante e mais clínica das dinâmicas familiares femininas na vida adulta.

Palavras-chave: Psicanálise; Relação mãe-filha; Separação psíquica; Casamento; Deslocamento afetivo.

1. Introdução

A relação mãe–filha ocupa um lugar estrutural na constituição psíquica feminina. Diferentemente do percurso masculino, cuja separação da mãe é mediada de forma mais evidente pela função paterna, a mulher constrói sua identidade em continuidade com a figura materna, o que torna os processos de diferenciação e separação mais complexos e ambivalentes (CHODOROW, 1978).

O casamento, enquanto marco simbólico e social, pode reativar conflitos psíquicos primários não totalmente elaborados, especialmente aqueles ligados à saída da posição de filha para a posição de mulher. Na prática clínica e na observação da experiência vivida, é recorrente a emergência de um movimento no qual a filha adulta passa a deslocar investimentos afetivos anteriormente dirigidos à mãe para outras figuras, como a sogra, concomitantemente à desidealização e à crítica da mãe.

Este artigo propõe uma leitura psicanalítica desse fenômeno, afastando interpretações morais ou reducionistas e situando-o como expressão de um processo de separação psíquica ainda em elaboração.

2. O casamento como operador de reorganização psíquica

Na teoria psicanalítica freudiana, os eventos da vida adulta não são compreendidos como meramente atuais, mas como situações que reativam conflitos infantis recalcados. O casamento, nesse sentido, opera como um dispositivo de reorganização libidinal, exigindo novos arranjos de investimento afetivo (FREUD, 1925).

Para que a filha se consolide como mulher e esposa, torna-se necessária uma redistribuição das lealdades emocionais. A mãe, anteriormente ocupante do lugar de principal objeto de identificação e confiança, passa a ser alvo de um afastamento simbólico. Esse deslocamento ocorre de modo inconsciente e não planejado, sendo frequentemente vivido com sofrimento tanto pela filha quanto pela mãe.

3. Idealização, desidealização e ataque ao objeto primário (Melanie Klein)

Melanie Klein oferece uma contribuição fundamental para a compreensão desse movimento ao introduzir os conceitos de ambivalência, ataque ao objeto amado e projeção. Segundo a autora, quando o sujeito não consegue integrar aspectos bons e maus do objeto, tende a cindir, projetando conteúdos negativos no objeto primário (KLEIN, 1991).

Nesse contexto, a mãe — por ser a figura mais carregada de história, intimidade e dependência — torna-se o alvo privilegiado dos ataques inconscientes. A sogra, por outro lado, pode ser idealizada justamente por ocupar um lugar menos atravessado por conflitos primários. A hostilidade dirigida à mãe não indica ausência de amor, mas a dificuldade de sustentar a ambivalência constitutiva do vínculo.

4. Projeção e sobrevivência do objeto (Winnicott)

Donald Winnicott contribui ao enfatizar a importância da sobrevivência do objeto aos ataques. Para o autor, o amadurecimento emocional depende da capacidade do objeto primário suportar a agressividade sem retaliar (WINNICOTT, 1975).

No caso da relação mãe–filha na vida adulta, a mãe que consegue manter uma presença firme, afetiva e não invasiva, mesmo diante da hostilidade da filha, oferece as condições para que o vínculo seja posteriormente reintegrado. A agressividade, nesse sentido, não é destrutiva em si, mas parte de um processo de diferenciação ainda em curso.

5. O corte simbólico e a saída da posição de filha (Lacan)

Jacques Lacan permite compreender esse fenômeno a partir da noção de corte simbólico. A passagem da posição de filha para a posição de mulher exige uma reorganização do lugar do Outro materno. Quando esse corte não se realiza de forma suficientemente simbolizada, pode emergir sob a forma de ataques, críticas ou afastamentos abruptos (LACAN, 1999).

A sogra pode ocupar, nesse arranjo, um lugar simbólico menos carregado de gozo e história, facilitando a separação da mãe. Falar mal da mãe ou desqualificá-la pode funcionar, inconscientemente, como uma tentativa de inscrição subjetiva: uma forma de afirmar a própria diferença.

6. Latência do vínculo e possibilidade de reintegração

Apesar da intensidade do conflito, o vínculo entre mãe e filha não se perde. Ele entra em um período de latência. Com o amadurecimento conjugal, a maternidade ou crises reais da vida adulta, a filha pode retomar a mãe de um lugar menos idealizado e mais realista.

Esse retorno só é possível quando a mãe não se coloca em posição rival, nem exige reparações imediatas, permitindo que o processo de separação psíquica se conclua.

7. Considerações finais

A hostilidade da filha adulta em relação à mãe após o casamento não deve ser interpretada como falha moral ou ingratidão, mas como expressão de uma dificuldade de separação psíquica. Trata-se de um fenômeno amplamente sustentado pela teoria psicanalítica, ainda que pouco nomeado no discurso social.

Nomear esse processo permite intervenções clínicas mais cuidadosas, tanto na escuta das mães quanto das filhas, favorecendo a elaboração emocional e a preservação dos vínculos.

Referências (ABNT)

CHODOROW, Nancy. The reproduction of mothering: psychoanalysis and the sociology of gender. Berkeley: University of California Press, 1978.

FREUD, Sigmund. Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos (1925). In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIX.

KLEIN, Melanie. Amor, culpa e reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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Aviso de Autoria:

Este artigo é de autoria exclusiva de Jussara Fagundes Rodrigues, psicopedagoga e neuropsicopedagoga, e encontra-se protegido pela pela Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais). É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa da autora. 

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