Uma travessia teórico-clínica para a formação docente
Jussara Fagundes Rodrigues
Neuropsicopedagoga

Resumo
Este artigo propõe uma reflexão teórico-clínica sobre as relações entre estrutura familiar, desenvolvimento infantil e escola, à luz da psicanálise e das neurociências do desenvolvimento. Discute-se a idealização contemporânea da família afetiva perfeita e seus efeitos na organização psíquica e neurobiológica da criança, especialmente diante do uso precoce e excessivo de tecnologias digitais. A partir da experiência institucional no contexto escolar e do Atendimento Educacional Especializado, analisa-se o deslocamento de funções familiares para a escola e o risco de patologização da desorganização estrutural do desenvolvimento infantil. Defende-se a importância de limites, previsibilidade e estrutura como elementos éticos e protetivos do desenvolvimento, reafirmando a função pedagógica da escola e a responsabilidade compartilhada entre família, instituições educacionais e políticas públicas.
Palavras-chave: estrutura familiar; desenvolvimento infantil; escola; neurodesenvolvimento; Atendimento Educacional Especializado.
Introdução
A escola contemporânea tem sido progressivamente convocada a lidar com demandas que extrapolam sua função pedagógica. Dificuldades de aprendizagem, desregulação emocional, comportamentos disruptivos e sofrimento psíquico infantil passaram a ser frequentemente tratados como problemas exclusivamente escolares. Esse deslocamento de responsabilidades produz sobrecarga institucional, adoecimento docente e leituras distorcidas sobre as causas do fracasso escolar.
Paralelamente, consolida-se no discurso social um ideal de família afetiva perfeita, marcado pela proximidade constante, pela convivência intensa e pela centralidade absoluta da criança como eixo da organização familiar. Esse modelo, amplamente difundido em discursos midiáticos, pedagógicos e até terapêuticos, tende a desconsiderar as funções estruturais da família e os limites necessários ao desenvolvimento psíquico e neurobiológico infantil.
Observa-se ainda o uso precoce e excessivo de tecnologias digitais no contexto familiar, frequentemente naturalizado como estratégia de cuidado, regulação emocional ou tranquilização da criança. A introdução indiscriminada de telas tem funcionado, em muitos casos, como substituto da presença simbólica do adulto, produzindo efeitos significativos no desenvolvimento infantil, que se manifestam de forma evidente no ambiente escolar.
Este texto emerge da articulação entre revisão teórica e experiência institucional no contexto da escola pública e do Atendimento Educacional Especializado. Parte-se da observação de crianças que chegam à escola apresentando dificuldades de autorregulação, atenção e interação, frequentemente interpretadas como indícios de transtornos do neurodesenvolvimento. Defende-se, aqui, a necessidade de uma leitura ética e estrutural do desenvolvimento infantil, anterior à rotulação diagnóstica.
Estrutura familiar e função simbólica
A psicanálise jamais concebeu a família como um espaço idealizado de harmonia afetiva, mas como uma estrutura simbólica fundamental para a constituição do sujeito. A organização psíquica da criança se constrói a partir da internalização de funções, limites e interdições, e não da simples presença de afeto.
A diferenciação entre função materna e função paterna permite compreender que o cuidado, o acolhimento e a continuidade precisam coexistir com a introdução do limite, da lei e da separação. A fragilização dessas funções compromete a organização subjetiva da criança, favorecendo quadros de dependência emocional, angústia difusa e dificuldades de simbolização.
No campo da terapia familiar estrutural, estudos demonstram que famílias excessivamente fusionais, com fronteiras difusas entre gerações e papéis, tendem a produzir crianças com dificuldades de autonomia, autorregulação e adaptação social. Nessas configurações, a criança passa a ocupar lugares que não lhe pertencem, assumindo funções emocionais incompatíveis com seu estágio de desenvolvimento.
O desenvolvimento emocional saudável não depende de excesso de estímulos ou de presença constante e intrusiva, mas da existência de um ambiente suficientemente bom, capaz de oferecer previsibilidade, continuidade e sustentação psíquica. Tanto a ausência quanto o excesso podem produzir falhas ambientais, quando impedem a experiência gradual de separação e autonomia.
Neurodesenvolvimento e hiperestimulação
As neurociências do desenvolvimento demonstram que o cérebro infantil é altamente dependente do ambiente para sua organização estrutural e funcional. Experiências precoces moldam a arquitetura cerebral, especialmente nos primeiros anos de vida, período marcado por elevada plasticidade neural.
Ambientes previsíveis, seguros e emocionalmente estáveis favorecem a integração neural. Em contrapartida, contextos marcados por instabilidade, excesso de estímulos e tensão relacional crônica podem gerar padrões de estresse tóxico, comprometendo o desenvolvimento de funções executivas, atenção, memória, linguagem e autorregulação emocional.
A hiperestimulação sensorial e emocional, intensificada pelo uso excessivo de telas, produz estados de hiperexcitação neurológica incompatíveis com os processos de aprendizagem. Crianças expostas precocemente a estímulos digitais rápidos tendem a apresentar dificuldades em sustentar a atenção em interações humanas que não seguem a lógica de recompensas imediatas.
Do ponto de vista neurofisiológico, o sistema nervoso infantil responde prioritariamente a sinais de segurança ou ameaça. Em contextos familiares marcados por conflitos velados, expectativas emocionais excessivas ou hiperestimulação constante, a criança tende a permanecer em estado de hiperalerta, o que impacta diretamente sua capacidade de aprender e se relacionar.
Escola, AEE e deslocamento de funções
Ao ingressar na escola, a criança já carrega um percurso emocional e neurobiológico. Quando esse percurso é marcado por fragilidade estrutural, a escola passa a absorver funções que não lhe pertencem. Professores são convocados a atuar como reguladores emocionais primários, mediadores de conflitos familiares e contenções psíquicas que extrapolam a função pedagógica.
No Atendimento Educacional Especializado, esse fenômeno se intensifica. Muitas crianças encaminhadas ao AEE não apresentam, inicialmente, deficiência ou transtorno diagnosticado, mas manifestações de desorganização emocional, atencional e comportamental decorrentes de contextos ambientais instáveis. O risco, nesses casos, é a patologização da desorganização estrutural do desenvolvimento infantil.
O PEI como ferramenta pedagógica frente à confusão diagnóstica
No contexto do AEE, observa-se com frequência a presença de crianças que, mesmo sem diagnóstico formal, apresentam funcionamento semelhante ao observado em transtornos do neurodesenvolvimento. Essas manifestações não podem ser analisadas de forma dissociada do contexto relacional no qual a criança se desenvolve.
Nessas situações, a elaboração do Plano Educacional Individualizado configura-se como uma decisão pedagógica e institucional, e não como antecipação diagnóstica. O PEI permite organizar o trabalho escolar a partir das necessidades observadas, oferecendo previsibilidade, estrutura e mediação adequada, sem recorrer à patologização precoce.
A atuação do AEE reafirma seu caráter complementar e suplementar ao ensino regular. Não se trata de espaço diagnóstico nem compensatório de fragilidades estruturais familiares, mas de um dispositivo pedagógico que protege a criança, sustenta o professor e preserva a função da escola.
O mito da família afetiva perfeita
A idealização contemporânea da família afetiva perfeita sustenta a crença de que proximidade emocional constante e centralidade absoluta da criança seriam, por si, fatores protetivos do desenvolvimento infantil. No entanto, tanto a psicanálise quanto a neurociência demonstram que a criança não se organiza por excesso de presença, mas por estrutura, previsibilidade e limite.
O uso de tecnologias digitais surge, nesse contexto, como estratégia de apaziguamento imediato, frequentemente confundida com tranquilidade infantil. Crianças aparentemente “calmas” diante das telas não se encontram em estado de regulação saudável, mas em um padrão de anestesia sensorial temporária.
Considerações finais
Reconhecer os limites da escola não significa negar sua importância, mas reafirmar sua função. A escola não adoece por falta de afeto, mas pelo acúmulo de demandas que não lhe pertencem. Sustentar limites, organizar rotinas e oferecer previsibilidade são atos éticos que protegem a infância, o desenvolvimento e o trabalho docente.
O Atendimento Educacional Especializado, ao atuar de forma complementar e suplementar, reafirma seu compromisso com a ética educacional, evitando a patologização da desorganização estrutural e devolvendo a cada instância — família, escola e políticas públicas — sua responsabilidade no cuidado com o desenvolvimento infantil.
REFERÊNCIAS
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WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
Jussara Fagundes Rodrigues
Neuropsicopedagoga | Psicopedagoga | Pedagoga
Atuação em Educação Inclusiva, Neurodiversidade e Atendimento Educacional Especializado (AEE).
Produção voltada à articulação entre neurociência, desenvolvimento infantil e prática pedagógica.
📩 Contato: jujufagundesrodrigues0@gmail.com
📷 Instagram: @jussarafagundesrodrigues
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Este texto integra a produção autoral da autora e é destinado à formação docente e à reflexão acadêmica.
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