DA VIVÊNCIA À PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO: QUANDO O CHÃO DA ESCOLA PENSA

Manifesto pedagógico

Autora: Jussara Fagundes Rodrigues

Professora desde os 18 anos

25 anos de atuação docente

• 22 anos na rede estadual

• 3 anos na rede municipal – Atendimento Educacional Especializado (AEE)

MANIFESTO PEDAGÓGICO

Da vivência à produção de conhecimento: quando o chão da escola pensa

Este texto nasce da recusa em aceitar que a experiência docente seja reduzida a relato subjetivo, desabafo emocional ou percepção individual desprovida de valor epistemológico. Ao longo de vinte e cinco anos de atuação na escola pública brasileira, compreendi que o chão da escola pensa, observa, registra, analisa e produz conhecimento — ainda que suas elaborações sejam sistematicamente silenciadas por discursos técnicos, burocráticos e estatísticos que não retornam à prática.

A vivência não é ausência de método. A vivência é método situado. É no cotidiano atravessado por políticas educacionais, avaliações externas, violências simbólicas, ausência de escuta institucional e tentativas diárias de mediação pedagógica que se produzem saberes que a teoria descolada da realidade não alcança. Transformar vivência em produção de conhecimento é um gesto político, ético e epistemológico, pois afirma que professores não são executores de protocolos, mas sujeitos cognoscentes, capazes de analisar criticamente o sistema que os atravessa e, muitas vezes, os adoece.

Quando o chão da escola pensa, ele revela aquilo que os documentos oficiais ocultam: a distância entre a lei e a prática, entre o discurso da inclusão e sua negação cotidiana, entre o direito garantido no papel e a violência institucional normalizada. Este manifesto inscreve-se como ato de resistência pedagógica e afirmação de que pensar a educação a partir da experiência não é fragilidade científica, mas radicalidade intelectual.

NOTA DA AUTORA – LUGAR DE FALA PEDAGÓGICO E EPISTEMOLÓGICO

Sou professora desde os 18 anos. Fiz magistério técnico, graduações em Letras (Português/Espanhol), Artes e Pedagogia. Sou especialista em Educação Especial, Atendimento Educacional Especializado (AEE), Deficiência Intelectual, Psicopedagogia e Neuropsicopedagogia, com diversas pós-graduações na área. Atuei por 22 anos na rede estadual e, há 3 anos, atuo na rede municipal como professora de AEE, totalizando 25 anos de docência.

Quando afirmo que “vi tudo acontecendo”, não se trata de retórica. Trata-se de vivência histórica concreta: acompanhei o afastamento progressivo dos alunos do letramento, da leitura significativa, da construção do pensamento crítico e da relação com o conhecimento. Vi o currículo ser reduzido a apostilas governamentais copiadas na última semana do bimestre, enquanto o restante do tempo era consumido por desinteresse, apatia e indisciplina. Vi professores profundamente comprometidos adoecerem mentalmente enquanto eram responsabilizados por um fracasso que não produziram.

Como professora neurodivergente (TEA), com comorbidades de TDAH e fibromialgia, vivi esse processo com intensidade ampliada. Minha rigidez cognitiva voltada à justiça, ao cumprimento da lei e à coerência ética sustentou, por muitos anos, uma crença talvez romantizada de que as legislações educacionais e de inclusão se concretizariam. A realidade se encarregou de desmontar essa crença.

O EMBURRECIMENTO PROGRAMADO E O CURRÍCULO OCULTO – JOHN TAYLOR GATTO

A leitura de Emburrecimento Programado: o currículo oculto da escolarização obrigatória, de John Taylor Gatto, produziu um efeito de reconhecimento profundo. O que Gatto denuncia no contexto norte-americano encontra correspondência direta no sistema educacional brasileiro: uma escola que não emancipa, mas domestica; que não forma pensamento crítico, mas treina obediência, passividade e fragmentação cognitiva.

O currículo oculto não está apenas no conteúdo, mas na forma: na repetição, na superficialidade, na ausência de aprofundamento, na ideia difundida de que “basta estar presente para passar”. Essa lógica, incorporada gradativamente pelos alunos, não nasceu deles, mas foi implantada por políticas educacionais que esvaziaram o sentido da escola.

DISCIPLINA, NORMALIZAÇÃO E CONTROLE – MICHEL FOUCAULT

A escola contemporânea opera como dispositivo disciplinar. Avaliações externas, métricas de desempenho, metas de alfabetização e competências leitoras funcionam como instrumentos de controle e normalização. O professor que se aprofunda torna-se “atrasado”; o aluno que não se enquadra torna-se problema.

A lógica foucaultiana da vigilância e da punição manifesta-se na culpabilização do professor, na exposição pública de resultados e na invisibilização das condições reais de ensino. O sistema não avalia para compreender; avalia para controlar.

SOCIEDADE DO DESEMPENHO E ESGOTAMENTO – BYUNG-CHUL HAN

O professor tornou-se sujeito do cansaço. Avaliado por gestores, colegas, alunos, plataformas digitais e indicadores externos, vive sob pressão permanente. A empatia institucional desloca-se para o aluno enquanto o professor é tratado como incapaz, descartável ou meramente burocrático.

Essa lógica produz adoecimento mental, ansiedade, depressão e abandono da carreira — fenômenos sistematicamente ignorados pelo discurso oficial.

QUANDO A LEI FALHA: O ENEM E A NEGAÇÃO DA INCLUSÃO

O episódio vivido durante a aplicação do ENEM, em novembro, representou um colapso ético e emocional. Atuando como aplicadora especializada para alunos com deficiência, deparei-me com a negação prática de direitos legalmente garantidos. Um aluno com TEA, TDAH e Deficiência Intelectual recebeu a mesma prova aplicada a alunos típicos, sem qualquer flexibilização de conteúdo.

O professor ledor/transcritor é obrigado a seguir protocolos rígidos que se sobrepõem à legislação. Não há possibilidade de explicação mediada, de adaptação cognitiva, de flexibilização real. A lei existe, mas o sistema a neutraliza. A inclusão transforma-se em encenação.

Nunca vi prova em braille. Para baixa visão, há ampliação. Para TEA e DI, há apenas a leitura mecânica. Não se trata de dar respostas, mas de garantir acesso cognitivo ao enunciado, direito sistematicamente negado.

AVALIAÇÕES EXTERNAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL E ANOS INICIAIS

No mesmo período, na rede municipal, ocorreu a aplicação de avaliação externa de habilidades de leitura no 1º ano. Meus alunos do AEE estavam assustados. Alguns travaram, tremeram, choraram. Crianças em fase pré-silábica, que liam palavras em outros contextos, não conseguiram responder sob pressão.

A avaliação não possuía guias visuais, flexibilização ou adaptação concreta. O aplicador não conhecia as crianças. Provei, por vídeos, que elas liam — mas o sistema ignorou. A culpa recaiu novamente sobre a escola e o professor.

Foi nesse momento que ouvi, de uma colega antiga de rede, que eu era “ingênua” por acreditar nas leis. Que o especialista estava ali apenas por exigência legal. Essa fala marcou o fim de uma ilusão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS – QUANDO A DESILUSÃO VIRA LUCIDEZ

Ao sair da tristeza, vi o mundo como ele é. A inclusão, nos moldes atuais, é promessa suspensa. A legislação é bem redigida, mas não é operacionalizada. O professor especializado é impedido de exercer sua função. O aluno permanece desassistido. E ninguém parece se importar.

Este ensaio é denúncia, elaboração e ruptura. Não escrevo mais para acreditar. Escrevo para registrar.

REFERÊNCIAS

GATTO, John Taylor. Emburrecimento Programado: o currículo oculto da escolarização obrigatória.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço.

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Lei nº 9.394/1996 (LDB).

BRASIL. Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão).

BRASIL. MEC/INEP – Normativas do ENEM (Atendimento Especializado).

SELO DE SEGURANÇA AUTORAL

© Jussara Fagundes Rodrigues – 2026

Este texto constitui obra intelectual autoral, resultante de vivência profissional sistematizada, reflexão crítica e elaboração teórica própria, configurando produção de conhecimento situada.

A obra está protegida pela Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais).

É proibida a reprodução, adaptação ou utilização parcial ou total deste material sem autorização expressa da autora.

A autoria aqui declarada é indissociável da experiência pedagógica que a fundamenta.

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