O Amor que Atravessa Eras

Tríade poética sobre reconhecimento, identidade e permanência

Nota de abertura autoral

Este texto nasce da compreensão de que o amor não se expressa por uma única voz.

Há sentimentos que se dizem ao mundo, outros que se reconhecem no corpo, e alguns que só existem quando sussurrados.

Por isso, este texto se apresenta em três vozes não como versões diferentes, mas como camadas de uma mesma experiência sentida.

A primeira voz é universal: fala do amor como arquétipo humano, reconhecível em qualquer tempo.

A segunda voz é feminina: ancorada na percepção do corpo, da intuição e do abrigo emocional.

A terceira voz é íntima: um sussurro interior, onde o amor não se explica, apenas repousa.

Essas vozes não competem entre si. Elas coexistem.

Assim como coexistem, em nós, o que mostramos, o que somos e o que guardamos.

Esta tríade não afirma verdades históricas, mas honra verdades sentidas aquelas que não pedem prova, apenas presença.

Jussara Fagundes Rodrigues

I — Sobre o amor que atravessa eras

Quando o amor nos visita com rosto conhecido,

não perguntamos de onde vem,

pois ele vem de mais longe que a memória

e de mais perto que o próprio coração.

Há amores que não pertencem ao tempo,

assim como o perfume não pertence à flor

e, ainda assim, dela nasce.

Não dizemos: “Vivemos isso antes”,

nem dizemos: “É a primeira vez”.

O amor não conta anos —

ele reconhece.

Reconhece o toque que não assusta,

o silêncio que não pesa,

o abrigo que não aprisiona.

O amor que atravessa eras

não traz provas.

Traz paz.

II — Sobre o amor que atravessa eras

Há amores que não pedem passagem,

porque já habitam o centro do peito.

Eles não se anunciam —

são reconhecidos.

Quando esse amor se aproxima,

o corpo não recua

e a alma não se explica.

Ela apenas se abre,

como terra que reconhece a chuva.

O amor feminino não conta eras,

ele sente o ritmo.

Sente quando o abraço não aperta,

quando o silêncio não fere,

quando a presença sustenta

sem exigir.

Esse amor não promete eternidade.

Oferece verdade.

III — Sobre o amor que atravessa eras

Há um amor que não chega —

ele desperta.

Quando o sinto, não há espanto,

há reconhecimento.

O corpo não se defende,

a alma não pergunta.

Ela apenas repousa.

Não sei dizer de onde vem,

nem em que tempo aprendeu meu nome.

Só sei que, diante dele,

não preciso explicar quem sou.

Esse amor não promete eternidade.

Ele oferece presença.

E isso me basta.

Quando estou nele,

não sou levada —

sou devolvida.

Inteira.

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Selo autoral

© Jussara Fagundes Rodrigues

O Amor que Atravessa Eras — Tríade Poética

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