(Educadores, AEE, coordenação, pais conscientes)
A escola contemporânea tem recebido crianças cada vez mais jovens em estado de exaustão emocional e neurológica. Chegam cansadas, sonolentas, inquietas, com dificuldade de sustentar a atenção, de permanecer sentadas e de se vincular à mediação do professor. Antes mesmo de qualquer possibilidade real de aprendizagem, o corpo já revela um sistema nervoso em colapso.
Esse fenômeno não nasce na escola. A escola apenas o recebe.
Do ponto de vista do neurodesenvolvimento, o cérebro infantil depende de previsibilidade, rotina, poucos vínculos estáveis e presença adulta real para se organizar. Quando a infância é marcada por hiperestimulação precoce, excesso de telas, privação de atenção emocional e adultos indisponíveis, o sistema nervoso passa a operar em estado de alerta constante. A criança não consegue desligar.
Na prática escolar, isso se manifesta de forma clara: atenção fragmentada, comportamento desafiador, agitação corporal intensa, dificuldade de tolerar frustrações e mudanças abruptas de foco. Muitas dessas crianças são confundidas com quadros de transtornos do neurodesenvolvimento, quando, na realidade, apresentam um padrão de funcionamento produzido por um ambiente excessivamente estimulante e emocionalmente desorganizado.
A analogia é inevitável: para muitas crianças, o adulto passou a ocupar o mesmo lugar que uma tela. Enquanto o estímulo é interessante, há engajamento. Quando deixa de ser, o foco muda instantaneamente. O professor vira um “conteúdo” descartável. Não por falha pedagógica, mas porque o cérebro foi treinado para funcionar assim.
O celular, frequentemente utilizado como regulador artificial do comportamento infantil, acalma momentaneamente os adultos, mas desorganiza progressivamente a criança. Não há troca simbólica, não há leitura do outro, não há construção de vínculo. Há apenas descarga sensorial. Um cérebro que não desliga não é um cérebro avançado — é um cérebro em sofrimento.
A escola, especialmente no contexto do Atendimento Educacional Especializado, passa então a absorver os efeitos desse colapso regulatório. O professor assume a função de regulador externo do sistema nervoso infantil, tentando organizar aquilo que deveria ter sido sustentado nos primeiros anos de vida. Essa sobrecarga explica, em parte, o esgotamento docente e o sentimento de impotência que atravessa a educação hoje.
Falar sobre isso não é atacar famílias, nem demonizar a tecnologia. É proteger a infância. É devolver ao adulto a responsabilidade pela presença, pelo limite e pela mediação. A criança não precisa de mais estímulos. Precisa de mais tempo psíquico para amadurecer.
Esse é o ponto exato onde a escola está sangrando. E enquanto fingirmos que não vemos, continuaremos tratando sintomas onde a causa está fora dos muros escolares.
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