A escola não adoeceu sozinha

A escola contemporânea tem sido responsabilizada por uma série de dificuldades que atravessam o cotidiano pedagógico: problemas de comportamento, dificuldades de aprendizagem, desregulação emocional e sofrimento infantil. No entanto, essa leitura costuma ignorar um aspecto central: a escola não é o ponto de origem desses fenômenos, mas o lugar onde eles chegam.

Grande parte das crianças ingressa no espaço escolar já em estado de desorganização emocional e cognitiva. Isso não ocorre por falha docente, mas por configurações familiares marcadas por instabilidade, excesso de estímulos, fragilidade de limites e relações fusionais. A escola passa a absorver aquilo que não foi simbolicamente organizado no ambiente familiar.

Quando se exige que o professor “acolha mais”, “flexibilize mais” ou “seja mais afetivo”, desloca-se para a educação uma função que não lhe pertence: a de reparar desestruturações que são anteriores ao processo escolar. Esse movimento produz adoecimento docente e compromete o próprio ato pedagógico.

Reconhecer que a escola não adoeceu sozinha é um passo ético fundamental. Não se trata de retirar responsabilidades, mas de recolocá-las em seus devidos lugares.

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