A infância hiperestimulada: quando o cérebro não consegue desligar

Nas últimas décadas, observa-se de forma cada vez mais precoce a chegada de crianças à escola em estado de cansaço extremo, sonolência, agitação corporal intensa e incapacidade de sustentar a atenção. Muitas chegam à primeira série já apresentando sinais compatíveis com a chamada Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA), embora ainda estejam no início da vida escolar.

Essas crianças aparentam estar “ligadas no máximo”: deslocam-se rapidamente pela sala, têm dificuldade em permanecer sentadas, demonstram comportamento desafiador, ignoram com facilidade a mediação do professor e mudam de foco de forma abrupta. Não é raro que sejam confundidas com quadros de Transtorno do Espectro Autista ou TDAH, quando, na realidade, apresentam um padrão de desenvolvimento marcado por hiperestimulação precoce e privação de vínculo atencional real.

O uso excessivo de telas desde os primeiros anos de vida tem produzido um efeito silencioso e profundo no neurodesenvolvimento. O cérebro infantil, ainda imaturo, passa a operar em estado de excitação contínua, sem tempo para integrar experiências, elaborar emoções ou desenvolver tolerância à frustração. O resultado é um sistema nervoso em permanente estado de alerta.

Um episódio recorrente no contexto escolar ilustra bem esse fenômeno: durante uma atividade lúdica no atendimento colaborativo do AEE, uma criança típica participa com interesse enquanto está diretamente envolvida. Ao término de sua vez, faz uma pergunta ao adulto e, enquanto recebe a resposta, simplesmente se desliga e direciona sua atenção para outro estímulo. A atenção não se sustenta. O vínculo não se mantém. O adulto deixa de existir como referência reguladora.

A analogia é inevitável: a criança se comporta como diante de uma tela. Quando o conteúdo deixa de ser imediatamente estimulante, “passa o dedo” e muda o foco. Nesse momento, o professor se torna, simbolicamente, um celular com conteúdo desinteressante.

Esse padrão tem impactos diretos na escola: crianças que não gostam mais de desenhar ou pintar, que não apresentam habilidades motoras básicas, que não sabem correr, esperar, negociar ou tolerar o outro. São imediatistas, choram com facilidade para obter o que desejam, apresentam comportamentos agressivos ou retraídos e demonstram extrema dificuldade em lidar com limites.

Do ponto de vista neurobiológico, um cérebro que “não desliga” é um cérebro em sofrimento. A exposição contínua a estímulos intensos, aliada à falta de presença emocional efetiva dos adultos, favorece estados de estresse crônico, ansiedade, irritabilidade e alterações no sono. A criança dorme mal, chega cansada à escola e, paradoxalmente, manifesta hiperatividade corporal como tentativa de autorregulação.

O celular, muitas vezes, cumpre uma função de contenção artificial: acalma momentaneamente os pais, mas desorganiza progressivamente a criança. Não há troca simbólica, não há leitura do outro, não há construção de vínculo. Há apenas descarga sensorial.

A escola recebe esse sujeito já exausto, hiperestimulado e emocionalmente carente de atenção real. Espera-se, então, que o professor dê conta de regular aquilo que foi desorganizado por anos de exposição inadequada. Esse deslocamento de função precisa ser nomeado.

Proteger a infância, hoje, passa necessariamente por reduzir estímulos, recuperar a presença adulta e restaurar experiências básicas: brincar, esperar, frustrar-se, criar, errar, repetir. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de recolocá-la em seu devido lugar — fora do lugar de cuidador.

A infância não precisa de mais estímulos. Precisa de mais presença, limite e tempo psíquico para amadurecer.

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